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Volume 34 / Fascículo 2
Abril 2011
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Física em Portugal no séc. XX: um salto quântico?
Como é geralmente conhecido nos meios que se interessam pelas questões do ensino em Portugal, Rómulo de Carvalho, foi, durante mais de 40 anos, professor do Ensino Liceal. De seu nome completo, Rómulo Vasco da Gama Carvalho, nasceu na freguesia da Sé, em Lisboa, a 24 de Novembro de 1906. Ensinou em Lisboa, no Liceu de Luís de Camões, de onde, depois de uma curta passagem pelo Liceu de Pedro Nunes, partiu para Coimbra, e aí prosseguiu o seu magistério no Liceu então chamado de D. João III. Por fim, no ano de 1957 regressou ao Pedro Nunes onde permaneceu até se aposentar em 1974. Faleceu, em Lisboa, a 19 de Fevereiro de 1997.
A Física na Universidade de Coimbra de 1900 a 1960 Leonardo, A. José F. (1); Martins, Décio R. (2); Fiolhais, Carlos (3) Departamento de Física e Centro de Física Computacional, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (x) ajleonardo@iol.pt (2) decio@pollux.fis.uc.pt (3) tcarlos@uc.pt Resumo Condicionada por restrições financeiras e menosprezada por razões culturais e ideológicas, a Física não foi uma área privilegiada em Portugal ao longo de quase todo o século XX. No entanto, alguns nomes destacaram-se na tentativa de melhorar o panorama dessa ciência entre nós, procurando manter o nosso país a par dos progressos mais recentes verificados lá fora. Alguns deles foram professores da Universidade de Coimbra, nas Faculdades de Filosofia e de Matemática até 1911, e da Faculdade de Ciências, que delas resultou, a partir dessa data. Apresentamos aqui esses físicos destacando os seus principais feitos.
Entre 1929 e 1947, sob a liderança conjunta de Cirilo Soares (1883-1950) e Manuel Valadares (1904-1982), o Laboratório de Física da Faculdade de Ciências de Lisboa constituiu a única escola de investigação em física experimental de sucesso existente em Portugal [1]. A sua dissolução em 1947, na sequência das expulsões de Valadares, Marques da Silva (1905-1965) e Armando Gibert (1914-1985), a que se seguiu o pedido solidário de aposentação de Soares, foi sempre apresentada como resultado de consequências exclusivamente políticas. Argumenta- se aqui que não foram apenas questões políticas - mas também questões de política científica - que estiveram por trás deste acontecimento
Departamento de Física (e Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência), Universidade de Évora, APARTADO 94, 7002-554 ÉVORA afitas@uevora.pt (x) A investigação das matérias divulgadas neste artigo foi feita no âmbito do projecto POCTI/HCT/37742/2001, apoiada pela FCT e co-financiado pelos fundos FEDER da Comunidade Europeia. Resumo Neste artigo descrevem-se alguns dos factos mais relevantes da introdução da Mecânica Quântica nas escolas superiores portuguesas, bem como o aparecimento dos primeiros trabalhos de investigação que podem estar associados a esta disciplina. Conta- se a história da tentativa de, com êxito, organizar e por a funcionar , no início da década de 1940 do século passado, um seminário de física teórica na Universidade do Porto. Uma iniciativa onde intervêm professores das universidades de Coimbra, Lisboa e Porto que pela sua associação a físicos estrangeiros conseguem levar por diante uma iniciativa inovadora e pioneira, mas de muito curta duração.
Aureliano de Mira Fernandes (1884 -1958), célebre professor de matemática no Instituto Superior Técnico e no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em Lisboa, foi um dos primeiros portugueses, senão o primeiro, a compreender a teoria da relatividade geral na sua abrangência. Esta teoria foi sendo absorvida gradativamente pela comunidade académica portuguesa, em especial por alguns matemáticos e astrónomos, na década de 1920. Mira Fernandes na segunda metade dessa década e na seguinte publicou artigos na revista italiana Rendiconti della Accademia dei Lincei, através de Levi-Civita, matemático italiano especialista em cálculo tensorial com quem se correspondia. Alguns dos artigos versavam sobre propriedades de conexões afins em cálculo tensorial e sobre teorias unitárias, extensões da relatividade geral que tentavam incorporar o eletromagnetismo numa só teoria unificada. Neste artigo desenvolveremos estes temas em detalhe.
Quem se interesse pela história da física dos séculos XIX e XX em Portugal tem de estar preparado para enfrentar uma interminável litania sobre o atraso do país. Não parece haver outra forma de abordar o assunto que não seja a de confirmar o divórcio entre o desenvolvimento de uma das disciplinas científicas mais desafiantes do espírito humano e a história contemporânea nacional. Os factos são incontestáveis. Nada há que se assemelhe na produção científica portuguesa da segunda metade do século XIX e primeiras décadas do XX aos trabalhos de William Thomson, J. C. Maxwell, Marie Curie, Max Planck, Henri Poincaré, ou Albert Einstein. E não se trata apenas de afirmar que não faz muito sentido comparar os nossos físicos da Escola Politécnica, da Universidade de Coimbra ou do Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda, àquelas luminárias do cânone científico. O desfasamento tem também que ver com os lapsos temporais, por desconhecimento, desinteresse, incapacidade, ou resistência militante, para que teorias como a dos quanta ou a relatividade fossem assimiladas pela comunidade de praticantes da física em Portugal.
O Reactor Português de Investigação foi instalado em Sacavém num laboratório expressamente construído para o albergar, o Laboratório de Física e Engenharia Nucleares. Entrou em funcionamento em 1961, após um acordo com os Estados Unidos da América para a sua aquisição em 1955, no contexto internacional da Guerra Fria. Este estudo, que lhe é dedicado, procura também determinar a influência do programa nuclear português na formação e na investigação em física e engenharia universitárias.
No ano em que o Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas celebra 25 anos de existência, pretende-se abordar de forma breve o contexto da sua criação e, sobretudo, proporcionar uma visão global daquilo que é hoje o LIP e de quais são as suas principais linhas de actividade.
Já passaram vinte anos sobre a entrada em vigor, em 1 de Janeiro de 1990, do Contrato de Associação entre a European Atomic Energy Community (Euratom) e o Instituto Superior Técnico (IST) [1]. Este importante instrumento legal enquadra a participação Portuguesa no Programa de Fusão da Euratom, o qual tem por objectivo final a construção de uma central eléctrica de Fusão Nuclear. Como estas reacções são a fonte de energia do Sol, a construção desta central significa a obtenção de um “sol” na Terra, providenciando- se uma nova tecnologia energética muito poderosa, limpa, praticamente inesgotável, segura, amiga do ambiente e economicamente muito atractiva.
Neste número publica-se a 1a parte da entrevista abrangendo o percurso de J. Veiga Simão em Coimbra, Cambridge e Lourenço Marques. A 2a parte diz respeito ao seu percurso entre 1970 e 2011.
“ÁTOMOS EM ACÇÃO” não deve dizer muito à maioria dos leitores da Gazeta; ou talvez diga, mas a um número razoável de colegas mais velhos. Foi o nome dado a uma exposição que se realizou entre 21 de Abril e 18 de Maio de 1965, em Lisboa, sob a égide da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos da América.
Foi por causa da Física que, em 1968, entrei no IST para estudar engenharia electrotécnica. Mas não era a engenharia o que eu desejava: queria ser físico. Saído do D. João de Castro, por lá tinha sido aconselhado a ser primeiro engenheiro, se queria ser físico depois. Viviam-se então tempos obscuros onde a autoridade tinha como fim único a sua própria legitimação. Já no IST, ainda recordo o pesadelo das cadeiras de Desenho, aulas de muita humilhação e pouco de desenho, o mercado dos cadernos coloridos da química, os caracteres góticos do electromagnetismo... Tudo ao lado do que eu queria: a física certamente que não iria florescer em tal adubo.
No dia 26 de Abril de 1985, Jaime Gama assinava em Genebra, em nome do Governo Português então presidido por Mário Soares, o acordo de adesão de Portugal ao CERN, para entrar em vigor em 1 de Janeiro do ano seguinte.

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