Em 2026 a Gazeta de Física faz 80 anos! A sua já longa história torna-a uma das revistas europeias de divulgação de Física há mais tempo em atividade, com publicação continuada ao longo destas décadas. Este número da Gazeta é, assim, dedicado aos seus 80 anos.
A Gazeta de Física é a revista oficial da Sociedade Portuguesa de Física. Nela, são publicados artigos de divulgação científica dirigidos a estudantes, professores, investigadores e técnicos na área da Física. Um dos seus principais objetivos é despertar o interesse dos jovens pelo estudo da Física, promovendo simultaneamente a troca de ideias e de experiências profissionais entre quem ensina, investiga e aplica esta ciência.
A revista divulga também informação sobre as atividades da Sociedade Portuguesa de Física, das suas delegações e das suas divisões técnicas.
A Gazeta de Física foi fundada em outubro de 1946 por Armando Gibert, Jaime Xavier de Brito, Rómulo de Carvalho e Lídia Salgueiro. O primeiro número da Gazeta de Física incluía temas relacionados com o ensino da Física, a divulgação da Física e da investigação mais recente, e as suas aplicações (ver imagem na página seguinte). Estas são, ainda hoje, as grandes áreas que norteiam a atividade da Gazeta, no cumprimento da sua missão fundadora. Para além disso, os tópicos de Física discutidos nesse primeiro número refletiam também a investigação e as discussões científicas da época.
O Laboratório de Física da Universidade de Coimbra (UC) foi um estabelecimento criado oficialmente durante a Primeira República Portuguesa, aquando da criação da Faculdade de Ciências da UC, em 1911. Sucedeu ao Pombalino “Gabinete de Física”, designação que prevaleceu entre 1772 e 1911, tendo por sua vez, sido alterada em 1972 para a actual denominação de “Departamento de Física”.
Nestes dois séculos e meio de existência, foram três as publicações periódicas com origem nesta instituição. Neste artigo, iremos debruçar-nos sobre a primeira destas publicações: Publications du Laboratoire de Physique de L’Université de Coimbra2. Esta revista, criada em 1933, curiosamente com um título em francês, teve como fundador Mário Augusto da Silva (1901-1977), Director do Laboratório de Física da UC entre 1931 e 1947 (figura 1).
Todavia, antes de nos debruçarmos em pormenor sobre esta publicação, vejamos onde eram publicados em Portugal, até esse ano, os resultados das investigações na área da Física.
A primeira publicação periódica a conter estudos nesta área terá sido as Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Aqui se encontram, logo no tomo I, saído em 1797, duas memórias sobre a força magnética, escritas por João António Dalla Bella (1730-1823), primeiro Director do Gabinete de Física da UC [1].
Há 80 anos, foi fundada a Gazeta de Física. A criação da revista (1946) inscreveu-se num movimento mais amplo de dinamização da vida científica portuguesa, que incluiu também a fundação de outras revistas especializadas, como a Portugaliæ Mathematica (1937), a Gazeta de Matemática (1939), a Portugaliæ Physica (1943), seguindo os passos da que foi a primeira de todas - a Revista de Chimica Pura e Applicada (1904). Em qualquer dos casos, buscava-se enfatizar a importância da comunicação entre os praticantes de uma mesma ciência, “construindo-se uma memória coletiva” à medida que foi decorrendo a sua trajetória no tempo [1, 2].
O acompanhamento da história da Gazeta de Física permite compreender a evolução da comunidade de físicos em Portugal entre finais da primeira metade do século XX e primeiro quarto do século XXI. O estudo desta publicação justifica-se por várias razões principais.
Em primeiro lugar, porque testemunha as diferentes dificuldades associadas à afirmação da profissão de físico em Portugal (anos 40 e seguintes), bem como os desafios ligados ao ensino e à aprendizagem da Física e à formação de profissionais nesta área.
Resumo
O artigo revisita o período em que o autor coordenou a equipa editorial da Gazeta de Física. A partir dessa experiência, reflecte-se sobre a relevância da divulgação científica em língua portuguesa no contexto actual.
Foi com muito gosto que recebi o convite do editor da Gazeta de Física (GF) para escrever um texto sobre os meus tempos enquanto director editorial da revista, correspondente ao período entre os Vols. 36 (2013) e 40 (2017). Sinto-me privilegiado por fazer parte da história desta instituição de comunicação de ciência em Portugal e por ter podido dar uma pequena contribuição para a sua notável longevidade. Ao longo destes 80 anos, vimos nascer e morrer diferentes jornais, revistas e editoras. A GF permanece firme e faço votos de que assim seja por muitos anos. Muitos parabéns, Gazeta!
O meu texto pretende abranger estas duas dimensões. Primeiro, um breve resumo dos principais destaques dos cinco anos em que dirigi a GF. Segundo, uma reflexão sobre o papel que uma revista de divulgação científica em português pode ter no mundo actual. Não há uma divisão rígida, pelo que estas duas vertentes se entrelaçam ocasionalmente.
Resumo
Este ensaio revisita a aventura editorial da Gazeta de Física entre 2007 e 2013, num período marcado pela emergência da revolução digital e novas formas de comunicar Ciência. A partir de memórias pessoais e institucionais, reflete-se sobre a importância no momento atual da revista na promoção do pensamento científico e da imaginação, da literacia crítica e da cidadania. O texto sublinha ainda a importância social da investigação em Física como espaço de colaboração e solidariedade internacional. E destaca o papel pertinente da Gazeta em revelar, tanto as grandes descobertas contemporâneas nos vários sub-domínios da Física, como as pontes entre áreas de especialização, as zonas de interdisciplinaridade e o seu impacto social. Num tempo de desinformação e mediação algorítmica, reafirma-se a relevância atual da Gazeta “para os físicos
e amigos da física”.
Gazeta de Física e o iPhone
A minha aventura como Diretora Editorial da Gazeta de Física começou em 2007, quando Augusto Barroso, então Presidente da SPF, me convidou para o cargo - com a sua energia habitual e uma argumentação difícil de recusar. Suceder a Carlos Fiolhais, com a sua experiência riquíssima de comunicação da Ciência, não me parecia fácil. Mas sabendo que me entusiasmo com desafios novos, o Presidente da SPF motivou-me com "carta-branca"- não propriamente um cheque em branco, mas um compromisso de investimento - para mudar o que entendesse. O essencial, dizia-me, era estarmos prontos para a mudança.
Já elenquei no meu artigo “Os 50 Anos mais recentes da Gazeta De Física» [1] (figura 1) a lista de directores, desde o 25 de Abril de 1974, da revista que foi fundada em 1946 por Armando Gibert, em Lisboa, assim como os principais marcas da história dessa publicação. Tive a honra de ter sido director da Gazeta de Física, órgão da Sociedade Portuguesa de Física (SPF), em duas fases com um pequeno intervalo: num primeiro período, entre 1992 e 1997, numa direção partilhada primeiro com João Bessa e Sousa, da Universidade do Porto, e Filipe Duarte Santos, da Universidade de Lisboa, e depois só com João Bessa e Sousa, entre 1999 e 2007, «a
solo». Tenho boas memórias desse trabalho. É com enorme gosto que registo aqui a óptima colaboração com os meus colegas mais velhos, que confiaram em mim. Aprendi muito com eles. De facto, eu gostava do trabalho editorial: tinha feito os jornais do liceu e da Faculdade e, desde o final de 1982, quando terminei o meu doutoramento na Alemanha, comecei a publicar artigos em órgãos de comunicação social nacionais. Quando entrei para a direcção da Gazeta, esta tinha a redacção no Porto, sendo impressa numa gráfica local. Desde 1999, quando passei a ter a direcção exclusiva, a redacção passou a ser em Coimbra, sendo a impressão numa gráfica da área de Lisboa.
No período em que tive responsabilidades directivas, assinalo a grande remodelação gráfica que ocorreu com o fasciculo 1 do volume 16 (1993), ao mudarmos o tamanho e a cor da capa (figura 2).
A capa desse número tinha a famosa fotografia de Einstein com a língua de fora, quando ele fez 70 anos. O fascículo 11 do volume 29 (1997), a partir do qual eu e o João Bessa e Sousa ficámos à frente da revista, foi um número especial de homenagem a Rómulo de Carvalho, o professor de Físico-Química do Liceu Pedro Nunes que foi também poeta sob o nome de António Gedeão (e que recebeu uma homenagem nacional em 1996, pouco antes de falecer, com 90 anos, promovida pelo ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago).
Resumo
No ano em que celebra 80 anos de existência, a “Gazeta de Física" mantém-se como referência no ensino da Física em Portugal. Este artigo reúne testemunhos de oito professores que colaboraram com a revista ou foram distinguidos pela Sociedade Portuguesa de Física; procurou-se compreender o impacto da publicação na prática pedagógica, no desenvolvimento profissional docente e na comunidade educativa. As perspetivas recolhidas evidenciam o papel da “Gazeta de Física” como espaço de partilha, reflexão e valorização do ensino da Física, bem como os desafios que enfrenta para manter a sua relevância junto das novas gerações.
Introdução
Ao longo de oito décadas de existência, a “Gazeta de Física” tem atravessado gerações de professores, estudantes e investigadores, acompanhando a evolução do ensino da Física em Portugal e contribuindo para aproximar a ciência da sala de aula [1]. Mais do que uma publicação científica, no sentido restrito, tornou-se um espaço de encontro, de partilha de experiências e de construção de comunidade de físicos. Desde 1974, assume ainda o papel de ser a voz da Sociedade Portuguesa de Física (SPF), refletindo e projetando a sua missão de promoção e valorização da Física.
Nos finais da década de 1990, a Gazeta de Física passou a publicar entrevistas com alguma regularidade. No editorial “Continuar”, Carlos Fiolhais sublinhava o legado da direção anterior, liderada pelo Professor Bessa de Sousa, reconhecendo as limitações de meios com que a revista continuava a defrontar-se:
“Este número, feito com a ajuda de jornalistas e gráficos profissionais,
mas ainda com falhas e lacunas inevitáveis, é uma tentativa de
mudança, mantendo um precioso legado”.
Ao mesmo tempo, apontava novos objetivos editoriais, apelando a uma maior participação dos leitores:
“conta[…] com o seu conselho experiente e a sua palavra amiga.
Algumas ideias sobre o futuro da “Gazeta”: a revista deve ser
mais partilhada pelos sócios, que são cordialmente convidados
a enriquecê-la com os seus contributos (os artigos, notícias, opiniões,
cartas …)”.
Este número assinalava ainda o início de uma nova etapa da revista, caracterizada por um novo formato gráfico, pela criação de secções
inéditas e pela diversificação dos conteúdos. [1]

Resumo
Armando Gibert foi o primeiro diretor da Gazeta de Física, um projeto que abraçou com entusiasmo e determinação numa fase decisiva da sua carreira académica. Nessa altura, iniciava o processo de reconhecimento do doutoramento realizado na prestigiada Eidgenössische Technische Hochschule (ETH), na Suíça, sob a orientação de Paul Scherrer, ao mesmo tempo que renovava o seu contrato como assistente de Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
Os anos de 1946 e 1947 marcaram o primeiro episódio de uma longa saga, com cerca de 25 anos, em torno do reconhecimento do seu doutoramento. O segundo episódio ocorreu em 1972-1973 e, apesar de ter sido finalmente bem-sucedido, ficou marcado pela atitude fria e pouco valorizadora de um júri que não apreciou devidamente o mérito do seu trabalho.
Após o 25 de Abril de 1974, Gibert — que, tal como muitos outros docentes, fora expulso da Faculdade em 1947 por uma Resolução do Conselho de Ministros assinada por Salazar — solicitou a sua reintegração. Contudo, o processo não decorreu de forma justa. As instâncias competentes limitaram-se a reintegrá-lo na categoria de professor auxiliar, e não na de professor catedrático, cargo para o qual reunia plena legitimidade e que teria sido a única forma adequada de reparar uma carreira científica abruptamente interrompida.

Resumo
Ao longo dos seus 80 anos de existência, a “Gazeta de Física” desempenhou um papel fundamental na divulgação científica e na reflexão sobre o ensino da Física em Portugal. O presente artigo propõe uma leitura histórica da evolução dos artigos dedicados ao ensino publicados na revista. Procura-se identificar tendências, continuidades e momentos de mudança nas abordagens pedagógicas, científicas e curriculares. A análise evidencia a forma como a “Gazeta” acompanhou as transformações da Física, das teorias educacionais e das políticas de ensino, afirmando-se simultaneamente como espaço de debate científico e pedagógico.
Introdução
No decurso de oito décadas, a “Gazeta de Física” tem desempenhado um papel central na divulgação, discussão e desenvolvimento da Física em Portugal, acompanhando não apenas a evolução do conhecimento científico, mas também as transformações nas formas de ensinar. Desde os seus primeiros números, a revista constituiu-se como espaço privilegiado de encontro entre investigadores, professores e estudantes, refletindo as preocupações científicas, pedagógicas e sociais de cada momento.
Quando, em Setembro de 1996, fui estudar para Inglaterra, recebi uma encomenda. Um ex-professor meu, da Universidade do Porto, pediu-me um artigo científico. A revista em questão não estava disponível em Portugal. Diligentemente, fui à biblioteca central da Universidade de Cambridge, onde, navegando por um índice de cartões encontrei o volume procurado. O cartão foi protocolarmente enviado por um maquinal bibliotecário num elevador de livros para uma cave, de onde, minutos depois, emergiu um pesado volume encadernado. Fotocopiei o alvo (e era caro!), dirigi-me aos correios e enviei o precioso conteúdo num envelope A4 castanho claro ao seu destinatário, que me agradeceu, por carta postal, algumas semanas depois.
Esta história está longe de ser única. Durante grande parte do século XX, comunicar ciência era um processo extraordinariamente lento. Além disso, o acesso ao conteúdo científico era limitado. Depois de terminar um artigo, imprimiam-se dezenas ou centenas de cópias em papel: os famosos preprints. Estas eram enviadas pelo correio para colegas espalhados pelo mundo. Nos grupos mais influentes existiam listas cuidadosamente mantidas dos destinatários habituais. Receber rapidamente um preprint podia significar vários meses de vantagem científica.
Eclipse Solar
Este ano, no dia 12 de Agosto foi possível observar um fenómeno astronómico especial: a Lua escondeu o Sol parcialmente em todo o país, ou mesmo totalmente numa pequena região de Trás-os-Montes, como na aldeia de Rio de Onor. Dizemos que há um eclipse de Sol quando a Lua tapa o Sol totalmente (eclipse total) ou parcialmente (eclipse parcial). Porque a órbita da Lua em torno da Terra não é circular, pode ainda acontecer
que quando a Terra, a Lua e o Sol estão alinhados a Lua não tapa totalmente o Sol e observa-se um anel do Sol em torno da Lua: designamos este eclipse por eclipse anular. O eclipse solar de 12 de Agosto também foi observado como um eclipse total na Gronelândia, Islândia, Norte da Rússia, Atlântico Norte e Espanha. A figura 1 mostra uma imagem divulgada pela NASA e captada em Espanha do eclipse solar total.
Entre os picos da cordilheira Oriental dos Andes colombianos, numa região conhecida pela sua produção de cacau e chocolate, ergue-se a cidade de Bucaramanga. Foi esta povoação colombiana que acolheu, em 2026, a 56.ª edição das Olimpíadas Internacionais de Física (IPhO), a já clássica competição em que estudantes pré-universitários demonstram os seus conhecimentos numa ampla gama de tópicos de Física. ...
A equipa portuguesa foi este ano constituída por Ignat Riazanov (E.S. Emídio Navarro, Almada), José Silva (Colégio Efanor, Matosinhos), Luís Silva (Colégio "Casa Mãe", Paredes), David Montenegro (E.S. João Gonçalves Zarco, Matosinhos) e Guilherme Oliveira (E.S. José Estevão, Aveiro). Estes alunos estão entre os vencedores das Olimpíadas nacionais de 2026, tendo sido selecionados provas internacionais depois do treino e um exame adicional. No final, a equipa regressa a Portugal com uma medalha de bronze, conquistada por Ignat, e duas menções honrosas, alcançadas por José e David.
Decorreu no dia 16 de maio de 2026, no Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, a etapa Nacional das Olimpíadas de Física. Os vencedores foram os seguintes:
No ano de 2026, estão a ser desenvolvidas diversas iniciativas para assinalar os 80 anos da Gazeta. Entre elas, destaca-se a disponibilização online do conjunto de textos da secção “Vamos Experimentar!”, que é especialmente direcionada para os mais novos. As atividades propostas são direcionadas a alunos do 1.º ciclo, podendo ser realizadas quer em sala de aula, com o apoio familiar, envolvendo pais, familiares e amigos. Para além disso, muitas das experiências podem também ser adaptadas para introduzir conceitos de Física no 3.º ciclo e no ensino secundário, alargando, assim, o seu alcance entre o publico mais jovem e aumentando a sua utilidade pedagógica. Assim, a sua publicação digital permite reunir, organizar e tornar facilmente acessíveis os seus conteúdos, facilitando a sua consulta por parte de professores, alunos e do público em geral. Um agradecimento especial à autora, Constança Providência, que, ao longo destes anos, tem mantido esta secção com enorme dedicação, contribuindo de forma muito importante para a qualidade da Gazeta de Física. Um agradecimento também à Marília Peres que compilou os textos para esta publicação.